A extinta premiação de videoclipes da MTV Brasil terminou em 2012 com um show inteiro do Racionais MC's. Foi o último ato da última edição do "Video Music Brasil". Um ato político, por assim dizer. Quem é que imagina hoje, nesses tempos soturnos, uma homenagem a Carlos Marighella no horário nobre da TV aberta? Aconteceu ali.
Transmitido ao vivo, o VMB teve gestos políticos em quase todas as edições, nem sempre previstos no roteiro. Aconteceu com o próprio Racionais em 1998, quando DJ KL Jay aproveitou a fala de agradecimento pelo prêmio "Escolha da Audiência" pra lembrar à própria MTV que as pessoas na periferia não tinham acesso ao canal pra acompanhar à celebração. Carlinhos Brown, ali no papel de mestre de cerimônias, até tentou brecar o recado, mas KL Jay em sua marcante elegância, aguardou a intervenção e completou sua palavra.
Já o VMB de 1999 veio, logo de cara, cutucando o apagão elétrico que infernizou o segundo mandato do governo FHC.
Depois da vinheta de abertura, surge Cazé Pecini no breu, cobrando o então presidente de botar "um para-raio em Bauru". Assistindo ao vídeo, fica fácil sacar que ele queria trazer outra coisa que rima com Bauru, mas foi de fato um raio na subestação de energia da cidade que desencadeou a crise elétrica nacional. Colado no protesto do apresentador, entram os Paralamas tocando "Que País é Este". Um gancho que perde força quando se sabe que a MTV também queria promover o álbum "Acústico" da banda, lançado dois meses antes.
Em 2004, o VMB aconteceu dois dias depois do primeiro turno das eleições municipais. Aqui em São Paulo, de onde era transmitido, foram alçados ao segundo turno Marta Suplicy, pelo PT, e o tucano José Serra, que acabou levando a disputa. Mas não antes de ser chapiscado no palco pelo músico Otto, a ponto de abandonar a premiação, conforme reportou a Folha.
O texto do jornal, aliás, é curioso. Tem empresário recitando Racionais pra defender o PSDB e a Marta mandando o repórter catar coquinho.
No ano seguinte, 2005, o Titãs performou a recém-lançada "Vossa Excelência", canção que mira a corrupção em Brasília, auge do Mensalão. O grupo Hermes e Renato também abordou o tema no VMB 2006, mas naquele humor farofa, uma performance até hoje confusa de abraçar.
Fico pensando como a MTV das antigas, seja no VMB ou demais conteúdos, lidaria com os fenômenos políticos atuais. Seria engolida por eles? Seria não, arrisco dizer que foi. E nem vale dizer que não faz falta porque temos a internet.
Uma janela que, além de divertir, provoque pensamento contestador em sua audiência nunca é demais.
Da pandemia pra cá, nos habituamos às lives. Elas se firmaram como fonte rápida de distração, tudo direto da horta, afinal, acompanhar obras finalizadas, como filmes e livros, não é o bastante. Somos instigados pelo que acontece em tempo real, com todo o charme e os riscos que isso pode proporcionar.
Como entusiasta de registros, às vezes salvo algumas transmissões. Vai que algo relevante seja dito, isso não pode se perder no limbo dos servidores, penso enquanto loto a memória do celular. Geralmente acaba valendo o trampo. Pesco informação ou, no mínimo, um meme em potencial.
Desse acervo de lives, compartilho dois momentos:
Um jet de carro com Mano Brown transmitido pelo MC Vitinho RB. No vídeo, Brown coloca pra tocar um som que passei a conhecer graças à live. Se chama "You'll never get to heaven (if you break my heart)", do grupo The Stylistics. O loko é que o Brown não deixa a música seguir. Aparentemente ele queria enfatizar a intro (ou só tava tirando uma onda).
Essa é de hoje. Kamau comentando os vinis que anda garimpando no giro por Nova York.