quarta-feira, 11 de março de 2026

Dilema

(se) saber sabe,
(im)possível é
(não) fazer

(p)arte do problema


terça-feira, 30 de setembro de 2025

Vetare humanum est

Há 12 anos, no mesmo 30 de setembro, zeravam as operações da velha MTV Brasil, que esteve sob comando do Grupo Abril de 1990 a 2013. 

Participei da equipe de produção nos cinco anos finais do canal, presenciando o apagar das luzes e o acender do último beck: um (anti) rito de passagem que rolou no alto do histórico edifício localizado na Alfonso Bovero n.º 52 - onde também funcionou, nos anos 1970, a TV Tupi.



Vista da escadaria externa da MTV (2011)


Bastidores do 'Trolalá MTV' (2012)

Viveu muito aquele lugar, você pode imaginar. Parte dessa memória foi parar em "MTV, bota essa p#@% pra funcionar", do Zico Goes, o cara que comandou a emissora por anos. O livro traz desde curiosidades do processo criativo do canal à guerra com a TV Globo pelo Acústico do Roberto Carlos. Prato cheio pra quem viveu aquele período ou se interessa por audiovisual e música.



Tem uma que me contaram num café e não entrou pra seleta do Zico: o Luau perdido do Jorge Ben Jor.

"Luau" foi um programa clássico que, durante 15 anos, contou com artistas musicais tocando na praia versões acústicas de sua obra ou incontestáveis hits das rodas de violão: um Raul, um Bezerra, um Ramones... Nesse balaio há edições memoráveis, como a da Cássia Eller, Marcelo D2, Rita Lee, Charlie Brown Jr. E tem a do Jorge Ben Jor. Que nunca foi ao ar.

Não conheço pessoalmente o ídolo Ben Jor, mas são familiares os relatos de que ele é muito (bastante) criterioso no apuro técnico de suas apresentações. É por isso, obviamente aliado à poética e swingue absurdos, que ele é o Jorge Ben Jor.

Pois em 2012, Jorge topou e gravou em Paraty (RJ) um episódio completo do Luau MTV, que contou com as singulares participações de Zeca Pagodinho, Sandra de Sá, Zé Ramalho, Carlinhos Brown... E Fiuk.

Aparentemente tudo certo, programa gravado, editado, mixado & masterizado. "Bora aprovar com a equipe do Jorge". E Jorge não aprovou. Jorge não curtiu o resultado de seu Luau, vetando a exibição na TV. Ficou pra quem esteve presente na gravação.

Embora ainda não fosse comum a onipresença dos smartphones, há registros da plateia, como este abaixo, com Ben Jor e Zé Ramalho performando a clássica "Errare humanum est", o que reforça a mítica em torno do grande músico e da própria MTV, ambos com suas trajetórias sinuosamente belas.



Aqui um compilado com trechos da gravação.

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

O encontro de uns


Busca rápida pela Wikipédia: 11 de agosto é uma data com D MAIÚSCULO.

Só no Brasil, é dia do estudante, do advogado, de Santa Clara, padroeira da televisão e, por conseguinte, dia da televisão.

Nasceram em 11/08: Viola Davis, Tatá Werneck e Shinji Mikami, criador do "Resident Evil". Em contrapartida, partiram Jackson Pollock, Paulo José e Robin Williams.

Nesse tufo de efemérides, uma em específico carimbou definitivamente a história na segunda metade do século XX.

Foi em 11 de agosto de 1973 que o DJ Kool Herc e sua irmã Cindy Campbell organizaram uma festa caseira que simplesmente fundou a Cultura Hip-Hop. Isso na Avenida Sedgwick, 1520, Bronx, Nova York.

Também em 11 de agosto, mas de 1991, que a Nickelodeon botou no ar pela primeira vez o desenho "Doug". Um dos meus (e certamente de outros milhares de pirralhos da geração 90) cartoons favoritos.

Outro dia me vi pensando o quanto "Doug" acabou contribuindo na minha formação como editor de vídeo. Eu moleque costumava cortar artesanalmente alguns episódios do desenho no par de aparelhos videocassetes lá de casa.

Eram técnicas pedestres. Mas nessas de passar o desenho de uma fita VHS a outra, aproveitava pra alterar a ordem das cenas, limar excessos, emendar sequências, achar o frame certo. Uma ousada e irresponsável, porém educativa, escolha narrativa.

Pelo simbólico da data, resolvi editar uma história de "Doug", como fazia quando menor, e compactei "Doug não sabe dançar" (assista abaixo). Um episódio que faz referência à Cultura Hip-Hop; juntando, assim, 1 com 1.



sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Alguns momentos políticos no VMB

A extinta premiação de videoclipes da MTV Brasil terminou em 2012 com um show inteiro do Racionais MC's. Foi o último ato da última edição do "Video Music Brasil". Um ato político, por assim dizer. Quem é que imagina, nesses tempos nebulosos, uma homenagem a Carlos Marighella em horário nobre na TV aberta? Aconteceu ali.

Transmitido ao vivo, o VMB teve gestos políticos em quase todas as edições, nem sempre previstos no roteiro. Aconteceu com o próprio Racionais em 1998, quando DJ KL Jay aproveitou a fala de agradecimento pelo prêmio "Escolha da Audiência" pra lembrar à própria MTV que as pessoas na periferia não tinham acesso ao canal pra assistir à celebração. Carlinhos Brown, ali no papel de mestre de cerimônias, até tentou brecar o recado, mas KL Jay, na maior elegância, aguardou a intervenção e completou sua palavra.


Já o VMB de 1999 veio, logo de cara, cutucando o apagão elétrico que infernizava o segundo mandato do governo FHC.

Depois da vinheta de abertura, surge Cazé Pecini no breu, cobrando o então presidente de botar "um para-raio em Bauru". Assistindo ao vídeo, fica fácil sacar que ele queria trazer outro termo que rima com Bauru, mas foi de fato um raio na subestação de energia da cidade que desencadeou a crise elétrica nacional. Colado no protesto do apresentador, entram os Paralamas tocando "Que País é Este". Um gancho que perde força quando se sabe que a MTV também querias promover o álbum "Acústico" da banda, lançado dois meses antes.


Em 2004, o VMB aconteceu dois dias depois do primeiro turno das eleições municipais. Aqui em São Paulo, de onde era transmitido, foram alçados ao segundo turno Marta Suplicy, pelo PT, e o tucano José Serra, que acabou levando a disputa. Mas não antes de ser chapiscado no palco pelo músico Otto, a ponto de abandonar a premiação, conforme reportou a Folha.

O texto do jornal, aliás, é curioso. Tem empresário recitando Racionais pra defender o PSDB e a Marta mandando o repórter catar coquinho. 

No ano seguinte, 2005, o Titãs performou a recém-lançada "Vossa Excelência", canção que mira a corrupção em Brasília, auge do Mensalão. O grupo Hermes e Renato também abordou o tema no VMB 2006, mas naquele humor farofa, uma performance até hoje confusa de abraçar.



Fico pensando como a MTV das antigas, seja no VMB ou demais conteúdos, lidaria com os fenômenos políticos atuais. Seria engolida por eles? Seria não, arrisco dizer que foi. E nem vale dizer que não faz falta porque temos a internet.

Uma janela que, além de divertir, provoque pensamento contestador em sua audiência nunca é demais.

quinta-feira, 8 de agosto de 2024

Calor do momento

Da pandemia pra cá, nos habituamos às lives. Elas se firmaram como fonte rápida de distração, tudo direto da horta, afinal, acompanhar obras finalizadas, como filmes e livros, não é o bastante. Somos instigados pelo que acontece em tempo real, com todo o charme e os riscos que isso pode proporcionar.

Como entusiasta de registros, às vezes salvo algumas transmissões. Vai que algo relevante seja dito, isso não pode se perder no limbo dos servidores, penso enquanto loto a memória do celular. Geralmente acaba valendo o trampo. Pesco informação ou, no mínimo, um meme em potencial.

Desse acervo de lives, compartilho dois momentos:

Um jet de carro com Mano Brown transmitido pelo MC Vitinho RB. No vídeo, Brown coloca pra tocar um som que passei a conhecer graças à live. Se chama "You'll never get to heaven (if you break my heart)", do grupo The Stylistics. O loko é que o Brown não deixa a música seguir. Aparentemente ele queria enfatizar a intro (ou só tava tirando uma onda).

Essa é de hoje. Kamau comentando os vinis que anda garimpando no giro por Nova York.

quarta-feira, 7 de agosto de 2024

Chuvisco nuclear

À primeira vista, Beastie Boys e Novos Baianos têm pouco a ver. Um é hip-hop nova-iorquino, outro faz samba diverso, ambos flertam com vertentes do jazz e do rock.

Em 1978, enquanto a trupe brasileira lançava o "Farol da Barra", seu último disco de inéditas, Mike D e Ad-Rock debutavam como músicos, formando The Young Aborigines que, pouco tempo depois, foi rebatizada de Beastie Boys, com a chegada do Adam "MCA" Yauch.

Talvez o elo fique na sonoridade experimental de trabalhos como "Vamos pro mundo" (1974) daqui e "The mix-up" (2007) de lá, os dois atravessados pela música instrumental. A guitarra swingada de Ad-Rock cairia muito bem nas mãos de Pepeu Gomes, embora eu fique em dúvida de um vice-versa.

Entre beasties e baianos, misturaria "Multilateral nuclear disarmament" com "Chuvisco" sem erro.


terça-feira, 6 de agosto de 2024

De volta pro futuro

Pego pra reler uns trechos de "Hip-Hop: Dentro do Movimento", livro-reportagem do Alessandro Buzo, publicado em 2010 como parte de uma coleção da editora Aeroplano dedicada à literatura produzida nas periferias.

São 316 páginas de entrevistas com nomes expressivos da cultura de rua: Nelson Triunfo, Emicida, Marechal, Pathy de Jesus, GOG, Kamau... Muita gente comunicando sua perspectiva sobre a cena naquele contexto.

Uma pergunta recorrente na publicação diz respeito ao que o entrevistado esperava do futuro da cultura hip-hop. Passados 14 anos, e apesar dos percalços que os artistas - sobretudo os independentes - costumam enfrentar no mundão, o avanço é notável. O hip-hop fixou sua relevância social, e o Estado, assim como o mercado, investem bem mais no segmento do que na época em que foi lançado o livro. Verdade que há muito a se alcançar, mas o caminho vem sendo pavimentado.

Abaixo, três respostas sobre o futuro publicadas em "Hip-Hop: Dentro do Movimento":

Japão (Viela 17) - "Espero investimento individual e coletivo, que toda a história seja lembrada como um ato heróico, feito única e exclusivamente para tirar o povo pobre do descrédito e do ócio urbano."

Toni C - "Não espero. No lugar, dou minha contribuição para que o hip-hop se reerga. Da maneira que está no atual momento, está bom para quem?"

Parteum - "Espero que saiamos da caixa que nos foi oferecida no início de tudo. Já éramos multimídia antes mesmo de o termo ganhar força, Buzo. Lançar mixtapes, criar campanhas de lançamento de disco com pouca verba, gravar videoclipes (e dirigi-los), criar logotipos, printar camisetas, formatar programas de rádio e TV com a temática do gênero... Qualquer seguidor do hip-hop sabe disso, mas acho que é chegada a hora de olharmos para outros estilos musicais, outras artes e assegurar nosso lugar ao sol, pois hoje em dia emprestamos bem mais do que pegamos emprestado. A 'caixa' ficou muito pequena..."