(se) saber sabe,
(im)possível é
(não) fazer
(p)arte do problema
Também em 11 de agosto, mas de 1991, estreou "Doug" no canal americano Nickelodeon. Definitivamente, meu cartoon favorito e de milhares de pirralhos daquela era.
Outro dia me lembrei que "Doug", certa forma, contribuiu na minha formação como editor de vídeos. Eu moleque costumava cortar artesanalmente alguns episódios no par de videocassetes que havia em casa. Eram técnicas pedestres, verdade. Mas, nessas de passar o desenho de uma VHS a outra, aproveitava pra alterar a ordem das cenas, tirar excessos, emendar sequências, achar o frame certo.
Pelo simbólico da data, resolvi editar uma história de "Doug", como fazia quando menor, e compactei "Doug não sabe dançar" (assista abaixo), um episódio que faz referências à Cultura Hip-Hop, juntando, assim, um com um.
A extinta premiação anual de videoclipes da MTV Brasil terminou em 2012 com um show inteiro do Racionais MC's. Foi o último ato do último "Video Music Brasil". Um ato político, por assim dizer. Quem é que imagina, nos tempos atuais, um hino a Carlos Marighella cantado em horário nobre na TV aberta?
Transmitido ao vivo, o VMB teve gestos políticos em quase todas as edições, nem sempre previstos no roteiro. Aconteceu com o próprio Racionais em 1998, quarta realização da festa, quando DJ KL Jay aproveitou a fala de agradecimento pelo troféu "Escolha da Audiência" para lembrar à própria MTV que as pessoas na periferia não conseguiam sintonizar o canal pra acompanhar à celebração. Carlinhos Brown, ali no papel de mestre de cerimônias, até tentou brecar o recado. Mas KL Jay, na maior elegância, aguardou a intervenção e completou a palavra.
No ano seguinte, 2005, o Titãs performou a recém-lançada "Vossa Excelência", canção que mira a corrupção em Brasília, auge do Mensalão. O grupo Hermes e Renato também abordou o tema no VMB 2006, mas naquele humor farofa beirando ao nebuloso.
Da pandemia pra cá, nos habituamos às lives. Elas se firmaram como fonte rápida de distração, tudo direto da horta, afinal, acompanhar obras finalizadas, como filmes e livros, não é o bastante. Somos instigados pelo que acontece em tempo real, com todo o charme e os riscos que isso pode proporcionar.
Como entusiasta de registros audiovisuais, às vezes salvo algumas transmissões. Vai que algo relevante seja dito, isso não pode se perder no limbo dos servidores, penso enquanto loto a memória do celular. Geralmente acaba valendo o trampo. Pesco informação ou, no mínimo, um meme em potencial.
Desse acervo de lives, compartilho dois momentos:
Um jet de carro com Mano Brown transmitido pelo MC Vitinho RB. No vídeo, Brown coloca pra tocar um som que passei a conhecer graças à live. Se chama "You'll never get to heaven (if you break my heart)", do grupo The Stylistics. O loko é que o Brown não deixa a música seguir. Aparentemente ele queria enfatizar a intro (ou só tava tirando uma onda).
Essa é de hoje. Kamau comentando os vinis que anda garimpando no giro por Nova York.
À primeira vista, Beastie Boys e Novos Baianos têm pouco a ver. Um é hip-hop nova-iorquino, outro faz samba diverso, ambos flertam com vertentes do jazz e do rock.
Em 1978, enquanto a trupe brasileira lançava o "Farol da Barra", seu último disco de inéditas, Mike D e Ad-Rock debutavam como músicos, formando The Young Aborigines que, pouco tempo depois, foi rebatizada de Beastie Boys, com a chegada do Adam "MCA" Yauch.
Talvez o elo fique na sonoridade experimental de trabalhos como "Vamos pro mundo" (1974) daqui e "The mix-up" (2007) de lá, os dois atravessados pela música instrumental. A guitarra swingada de Ad-Rock cairia muito bem nas mãos de Pepeu Gomes, embora eu fique em dúvida de um vice-versa.
Entre beasties e baianos, misturaria "Multilateral nuclear disarmament" com "Chuvisco" sem erro.
Pego pra reler uns trechos de "Hip-Hop: Dentro do Movimento", livro-reportagem do Alessandro Buzo, publicado em 2010 como parte de uma coleção da editora Aeroplano dedicada à literatura produzida nas periferias.
São 316 páginas de entrevistas com nomes expressivos da cultura de rua: Nelson Triunfo, Emicida, Marechal, Pathy de Jesus, GOG, Kamau... Muita gente comunicando sua perspectiva sobre a cena naquele contexto.
Uma pergunta reconte na publicação diz respeito ao que o entrevistado esperava do futuro da cultura hip-hop ali na primeira etapa do século. Passados 14 anos, e apesar dos percalços que os artistas, sobretudo independentes, costumam enfrentar no mundão, é notável o avanço. O hip-hop fixou seu respeito e lugar na sociedade, e o Estado, assim como o mercado, investem bem mais no segmento do que na época em que foi lançado o livro. Verdade que há muito a se conquistar, mas o caminho vem sendo pavimentado.
Abaixo, três respostas sobre o futuro publicadas em "Hip-Hop: Dentro do Movimento":
Japão (Viela 17) - "Espero investimento individual e coletivo, que toda a história seja lembrada como um ato heróico, feito única e exclusivamente para tirar o povo pobre do descrédito e do ócio urbano."
Toni C - "Não espero. No lugar, dou minha contribuição para que o hip-hop se reerga. Da maneira que está no atual momento, está bom para quem?"
Parteum - "Espero que saiamos da caixa que nos foi oferecida no início de tudo. Já éramos multimídia antes mesmo de o termo ganhar força, Buzo. Lançar mixtapes, criar campanhas de lançamento de disco com pouca verba, gravar videoclipes (e dirigi-los), criar logotipos, printar camisetas, formatar programas de rádio e TV com a temática do gênero... Qualquer seguidor do hip-hop sabe disso, mas acho que é chegada a hora de olharmos para outros estilos musicais, outras artes e assegurar nosso lugar ao sol, pois hoje em dia emprestamos bem mais do que pegamos emprestado. A 'caixa' ficou muito pequena..."